VERSÃO FINAL BRAM VAN VELDE 

Emmanuelle Gaden

  

Dedico essa tradução a Rubens Espírito Santo, a quem devo tudo o que sei e aprendo de mais importante e essencial na minha vida. 

“Eu me sinto conectado a vida.

À imensidão e a complexidade da vida.

Cada tela é um arrebatamento em direção à vida.” 

 

  

  

  

  

  

  

  

  

Pág.61


 O homem da falta 

  
Incômodo de ter que empregar palavras para falar de um homem que não lhes dispensa nenhum crédito, para falar de um pintor que considera que escrever sobre pintura é uma ocupação estéril, vã, quase sem sentido. 
 
Sentimento de incompetência em querer tentar elucidar esse mistério que jaz em toda obra, também presente nesta que nos ocupa. De querer tentar restituir a intensidade que a habita. De empenhar-se em interrogar de onde se origina, o que a alimentou, o que ela nós dá a ver e vivenciar. 
 
Consciência de não existir linguagem alguma que permita expressar em que consiste a busca de um estado propriamente inefável e ainda menos, o que pode ser esse estado. 
 
Risco de submeter a uma investigação que vai de encontro ás exigências da razão, um mundo que pertence à ordem outra, que a do pensamento. De esclarecer com uma luz factícia talvez, uma situação interna de difícil sondagem, de condensá-la, e procurar esquecer que ela é em muitos casos, apenas angústia, dilaceramento, trevas.··. 

  

  

  

 
Pg. 62. 
 
  
 
Temor em projetar minha problemática sobre a outra, que estou me propondo analisar. 
 
Convicção na mesma medida, de não estar à altura, de não ter suficientemente caminhado para estar no mesmo nível, fazendo um testemunho sobre essa pintura, expressar sua extrema simplicidade... 
 
Assim, no limiar desse texto, o que se impõe a mim, são todas as razões que existiriam de não empreendê-lo. No entanto, eu sinto que é necessário prosseguir. Porque essa obra me interpela. E ela me chama com tanta força, que não me é permitido escapar ás questões que ela coloca, ao que ela me intima a participar. Uma aventura essencial se desdobra nela- que importa a cada um, viver- e querer percorrer novamente, será um pouco validar sua riqueza, seu poder de fecundação- um poder inerente a toda obra nascida de uma ardente indagação da vida. 
 
Mediante a isso, já que sei que só posso falhar, não é tanto um escândalo, para o espírito, escrever um texto destinado a favorecer a aproximação de uma investida que assumiu seu fracasso- fracasso em viver, fracasso em representar- que o texto seja, ele mesmo, submetido a essa fatalidade. 

      

  

  

  

Pg. 63 

 

 

E para começar: o homem. 

 

Um ser de grande doçura, cuja excentricidade chama a atenção desde o primeiro encontro. Ele que ama fazer longos passeios solitários, ou ficar sentado, durante horas, absolutamente imóvel, a percorrer-se examinando minuciosamente cada uma de suas sendas. O olhar ora neutro, fixo, vazio, ora agudo e penetrante, capaz de passar instantaneamente do trágico a mais franca alegria. 

Um homem cujo vestir é sempre rigoroso e sóbrio, as mãos impecavelmente limpas, sem nenhum rastro de tinta- E pressentimos que ele é um desses seres, cuja singularidade é tão marcada que eles sentem a necessidade de camuflar-se com uma aparência inofensiva, de dissimularem o que são de empenhar-se a parecer com os outros, numa vontade exasperada de outorgarem-se semelhantes- possíveis interlocutores. (ao menos,  essa é a interpretação muito pessoal que eu posso adiantar-vos). 

Um homem que tem repugnância em falar egocentricamente de si, que só se abre com reticência, apenas quando acuado de perguntas, e que se expressa então com um tom impessoal, mas com convicção, utilizando algumas vezes atalhos surpreendentes e revelando-se sempre claro, direto, preciso, lúcido. Por vezes uma luminescência o atravessa que se formula como que a sua revelia, e da qual ele é o primeiro a surpreender-se. 

Na comunhão com o outro, ele, intensamente presente,  mergulha subitamente em suas profundezas abismais e erra em longitudes tais, que pressentimos que seria inútil procurar alcançá-lo. Uma pergunta uma vez feita, depois de longos minutos de silêncio suscita então, certo desespero. 

E se acontece que a conversação se afaste do que é a sua constante preocupação- quando uma terceira pessoa sobrevém depois que o diálogo já tenha se iniciado, ou, por exemplo, em um jantar- ele se desconecta no mesmo segundo. 

Pg.64 

 

Um ser extremamente concentrado, mas nunca rígido, nem austero, nem pesado, a cada instante requerido ou assaltado pelo que fermenta em si, e que dá a impressão que a atenção com sigo mesmo não conhece nenhuma trégua. 

Mostra-se algumas vezes genuinamente surpreso com essa necessidade de pintar que o habita, a qual ele se esforça desde tantos anos de desvendar o segredo. 

Utiliza as palavras de modo que ressoem, reverberando, mas repete que elas não sabem transmitir nada daquilo que estão encarregadas traduzir, e que o que importa nunca pode ser expresso. Daí vem esse mutismo que lhe cerra os lábios. 

Em poucas palavras, um homem encarnado, vibrante, desapegado, vulnerável- preocupado em não fazer nada que possa abrigá-lo. Tão desprovido quanto resoluto a todos os combates da aventura interior. Às vezes, leve, alegre, transparente, mas quase sempre grave trágico mesmo. Dissimulando seu embaraço e sua timidez por detrás de um sorriso costumeiro. Rigorosamente incapaz de dizer o que não pensa. Manifestando a mais completa indiferença ao que pertence ao passado. Conservando-se em permanência à espreita, obcecado em sua sondagem, em sua empreitada: passivamente encurralar o que não se nomeia. 

Um homem prisioneiro de uma surpreendente passividade nas suas relações com o mundo, mas subitamente invadido por uma espécie de potência selvagem quando lhe é necessário o embate com a tela. Têm uma sensibilidade tão viva, que em sua presença, chegamos a perguntar-nos como um ser como este pôde atravessar a vida sem estilhaçar-se. 

  

  

Pg. 67: 

 

 

 

“Eu só busco a vida, apenas  isso.” 

São poucas as existências que são devastadas e ensolaradas por uma febril procura pela vida. A de Bram Van Velde é uma delas. Esse homem pertence de fato, a esses favorecidos da sorte, condenados a não poderem nunca satisfazer-se deles mesmos, compelidos a trabalhar, a destruírem-se, a recriarem-se, a perseguir sempre mais longe, ou mais alto, ou mais baixo esse lugar, mas não é um lugar, esse estado, mas não é um estado, essa coisa, mas não é de uma coisa, que eles têm a fome mais voraz. 

Existências desoladas, que são apenas um incansável caminhar. Entrega e desespero, raiva, dúvida, consumação, fervor, espera, vigília e rigor, perdição e espera, esperança e espera, consentimento... E de tempos em tempos uma trégua, breves instantes de concórdia, unidade, paz, presença- instantes onde o ser saboreia o que o satisfaz, enquanto escava sua fome. 

 

Para entender a pintura de Bram Van Velde, é então necessário em primeiro lugar, deter-se ao que é a sua condição, tentar explicar a aventura interior na qual ele se encontra engajado, em poucas palavras, determinar em que consiste essa procura pela vida. 

 

Mas a tarefa é árdua. Pois em que termos, falar dessa busca quando o que está sendo procurado não possui uma definição? 

 

Além disso, se testemunhamos de um cuidado em sermos precisos, importa ater-se a proximidade do Centro. Ora, quanto mais nos aproximamos do Centro- esse cerne da consciência que sonda, vê, conhece. Esse olho que se esforça em apreender com uma visão global a inextricável totalidade que o circunda- menos temos recursos para dizer, e mais a palavra se exaspera, tende a proliferar-se, a esparramar sua névoa, de maneira que a tentativa aborte, gire em favor de fins contrários. 

  

 Pg. 68: 

 De toda maneira, é preciso correr esse risco, sem esquecer em nenhum momento que este combate que conduz um ser, do eu ao não eu, escapa a qualquer descrição, e que o fracasso nos acompanha fielmente, em cada frase, em cada palavra. 

Pg.68 

 

 

  

“Quanto mais estamos perdidos, mas somos arrastados em direção à raiz, a profundidade”. 

“O importante é não querer ser nada” 

Busca do real 

 

Busca de uma efetiva liberdade. 

(essa que conduz a uma disciplina rigorosa) 

Busca do espaço interior o mais vasto. 

Busca de si pela destruição de um espaço individual contingente, falso, fabricado, fragmentado e enfermo. 

Busca do comportamento justo que traria uma resposta pragmática a perguntas que nos atormentam. 

Busca da clareza, ordem, unidade, harmonia, presença consigo e o mundo. 

Busca pelo anônimo, o costumeiro, o sem particularidade, o imutável. 

Busca por uma imersão nas tépidas águas da origem. 

Busca por uma paz que não seria refúgio, evasão, mas imóvel escoamento de uma tranquila e borbulhante energia. 

 

Pg.70 

Busca pelo conhecimento, a lucidez e por fim uma consciência onde o olho teria adormecido, teria posto fim a cisão, onde o ser seria apenas vacuidade. 

 

Procura desse instante onde o olhar inverte-se, volta-se sobre o próprio olho que o emana, queima dentro dele o que arrisca ainda alterar sua visão. 

 

Procura desse outro instante onde o ser consente enfim a não ser nada, e renasce. 

 

Procura por uma metamorfose, ou melhor, uma mutação, que faria que a evolução do indivíduo em direção à persona realizasse e prolongasse a mais que lenta evolução da nossa espécie. 

Pg.73 

Procura de um sentido. De uma sabedoria. Na submissão a uma exigência ética que têm em nós uma raiz psicogenética, e que não entretém relação alguma com moral, metafísica, filosofia ou religião1. 

Procura pela essência, pelo fundamental. 

 

Procura por esse fulgor onde o ser é apenas visão, imensidade, luz intensificando a luz. 

 

Indissociáveis, encobrindo-se umas ás outras, essas noções cooperam todas, a dar-nos uma ideia do que é feita a busca pela vida. Elas evocam tal aspecto, tal momento, tal consequência, tal nostalgia, ou tal extrema possibilidade. 

Mas talvez essas sejam ainda de ordem muito geral e sem dúvida é necessário continuar o estudo mais avante. 

 

Pg.73 

 

O real não possui um caminho fácil. 

Não ser nada. Simplesmente nada. É uma experiência assustadora.

É preciso arriscar tudo. 

O homem no qual habita uma necessidade vital da verdadeira vida, da vida onde o real seja o único alicerce, onde o real inspire cada gesto, cada etapa do pensamento. Nele esta necessidade intervém como uma constante referência baliza o caminho a seguir. 

 Pg 75.  

 

Este homem esta sujeito a empreender um imenso trabalho sobre si mesmo. Porque essa necessidade entra em guerra com tudo que se opõe a ele. E resultam disso, tais conflitos, tais embates, que o ser é obrigado primeiramente a tomar consciência destes, e assim, descobrir o que o constitui. Depois, ele cede à pressão dessa necessidade. Assim dá-lhe voz, apoia-a, ajuda-a a vencer. 

 

Assim esse homem dilacerado é obrigado a olhar dentro de si. E o que vê? Ainda que possua nomes para nomear, ele constata que é composto de todo um emaranhado de formações contraditórias, e logo, seu olho obstruído discerne confusamente que ele esta na desordem, na mais completa escuridão: 

 

Memórias, saberes, múltiplas influencias e condicionamentos herdados de uma cultura, uma classe social, um meio, medo da vida e da morte, apego a um ideal ou uma ideologia, engenhosas e derrisórias construções do intelecto, identificações e crenças de toda natureza, imagens vantajosas de nós mesmos as quais nos aplicamos a nos conformar, conclusões impostas antes mesmo que as perguntas tenham surgido, procura de uma segurança, tanto material quanto psicológica, inumeráveis desejos esbarrando-se uns nos outros, sobrevivência de um passado, projeção no devir, preconceitos e ilusões diversas, orgulho, egocentrismo, ignorância, miséria, secreta miséria...  

 

É tudo isso que embaraça o ser, O perverte, o corta de suas raízes, lhe fabrica uma jaula, um porão nauseabundo onde ele se esgota andando em círculos, privado de ar e de luz- besta selvagem; Kasper Hauser. 

 

Assediado pela sua necessidade do real, sua sede de espaço, de ordem, e claridade, esse homem vai de agora em diante, investir com um cruel rigor, em romper suas amarras e suas correntes. Derrubar os muros de sua prisão, queimar todas as carcaças que apodrecem nele, e não vai cessar de ir em direção a sempre mais consciência, desapego e simplicidade, liberdade e luz. 

 

Pg. 76 

Tal combate entre si e si mesmo só pode obviamente acontecer na solidão mais absoluta- uma solidão tanto física quanto intelectual e moral. E é um combate lento, doloroso, de inicio extenuante, que desconhece termo, que deve mesmo ser incessantemente recomeçado, de maneira que ocupe a inteira duração de uma vida. 

Eu não me afastei de Bram Van Velde. O que acabo de esboçar aqui se aplica a ele ponto por ponto. 

 

Imerso em sua fome insaciável do real, do autentico, do elementar, de uma vida vivida como que na sua fonte, sem duvida ele entendeu muito cedo que o ser só se alcança sacrificando a si mesmo. É por isso que durante sua existência, ele trabalhou fervorosamente decepando esse olho da consciência- o instrumento que conhece e talha. Destruir o eu, se desnudar, renunciar, encaminhar-se para o silêncio e o nada. 

 

Pg.76 

“Melhor é quando menos pensamos, 

Quanto mais sabemos, menos somos” 

Talvez seja agora o momento de introduzir aqui uma observação precisa. 

Da mesma maneira que existem duas formas de imaginário, existem dois tipos de pensamento. Um que se origina do intelecto, do eu, da memória, da cultura, que não pode desvelar nada por si mesmo, só é capaz de encadear ideias e palavras, trabalha sem estar submetido às exigências do não eu, da procura do real. 

Pg. 77 

 

O outro, que eu qualificaria de pensamento  profundo, intuitivo, que tem acesso direto as evidências, ao fundamental, trabalha além das palavras; da cultura, das ideias e se confunde frequentemente com a instância ética que o inspira, alimenta, governa. 

 

É por certo evidente que essas duas formas da atividade do pensamento não admitem uma fronteira precisa entre elas. Podem ou não coexistir em um mesmo indivíduo. Podem ou não colaborar uma com a outra. Na maior parte do tempo a primeira embaralha e desregula a segunda sufocando-a. Mas é certo, que se o pensamento profundo armado de uma fome voraz do real, consegue  fazer-se ouvir e obedecer, a  atividade do intelecto primeiramente se encontrará consideravelmente reduzida, e assim colocada em estado de subordinação, de maneira que possa ser exercida sob um estrito e constante controle. 

 

Bram Van Velde estabeleceu-se no pensamento profundo, onde o ser apreende que a língua a qual falamos é apenas um código, uma convenção. Onde as noções, ideias, conceitos, representações das quais nos servimos, são apenas ferramentas infinitamente grosseiras, sumarias, que as palavras que usamos traem, secam e desnaturam aquilo que as encarregamos traduzir. Daí vem sua convicção, que no limiar, não podemos apreender nada, nem entender nada, que tudo é indizível, que a essência do ser, da vida será sempre para nós esse magma obscuro sobre o qual nossos olhos e nossas mãos se exasperam em vão em procurar um alcance. 

Pg. 78 

“Eu sou um ser sem língua. Eu não posso dizer nada, eu não tenho palavras.” Ou ainda: “É terrível viver quando não temos poder sobre as palavras”.  

Essa sensação que as palavras mentem, e que é condenável deixar-se atravessar por elas, foi sem dúvida para Bram Van Velde um ponto dramático, de tal maneira que ele afirma- ele que fala tão pouco e vive na obsessão do real- que tudo que diz é falso e não merece atenção.  

Pg.78- Uma investigação ontológica. 

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